Nasce dos Olhos

Naquela tarde sossegada no café da esquina, fim de sol, fim do dia fácil de pensamentos despreocupados, tento sem entusiasmo nenhum prender a minha atenção no jornal sem graça. Nada de cores, só as mesmas notícias, a mesma política suja e enferrujada. Percebo então um olhar incomodante vindo da mesa da frente do lado oposto da sala. Observei de um jeito delicado para tentar não parecer interessada, não estava. Ele estava lá, sentado, barda por fazer e o cabelo de um jeito jogado, sobre a mesa o copo de café, muito quente. Os olhares se encontraram, muito quente! Parei tudo por alguns milésimos de segundos, eu não sei nem se respirei durante esse tempo, meio envergonhada e incomodada com o olhar, tentei voltar rapidamente para a minha leitura sem graça. Preferiria estar lendo um romance ou qualquer coisa que me tirasse do mundo, tentei me prender àquelas paginas mas não consegui, um encontro de olhares não é algo fácil de ser ignorado.
Ele ainda estava ali, do outro lado, sentado de mau jeito na cadeira, como um garoto sem a mãe por perto pra corrigi-lo, tomava o seu café com calma como se não houvesse vida lá fora, será que não tinha nada melhor pra fazer a não ser me observar de longe? Confesso que depois de alguns minutos, poucos, percebi que estava gostando do seu olhar, de forma simples aquilo mexia com a minha vaidade.
Não sabia mais o que fazer, se o encarava, se me levantava e ia embora, ou se só jogava o cabelo como um ato sutil de “estou te dando bola!” Não conseguiria ser tão sutil… Em uma distração da parte dele, quando foi mexer o café, colocar mais açúcar talvez, prestei melhor atenção em seus traços, um rosto bonito, queixo quadrado, percebi que além de despenteado seu cabelo era levemente claro, um castanho, não tão loiro, estava usando uma camisa, meio amassada com os três primeiros botões desabotoados, e as mangas dobradas como se estivesse com calor. Deveria, a tarde estava muito quente.
Nesse momento eu já o estava analisando, quase tentando descobrir de quem se tratava apenas olhando para ele e então ele levantou o olhar pra mim, tinha algo de diferente, olhos grandes e verdes, ou talvez azuis, ele tinha o oceano no olhar. Profundo e misterioso. Colocou esses olhos nos meus, de maneira mais forte e intensa do que no nosso primeiro encontro de olhares, levei um susto mas não consegui desviar, eu estava presa, que absurdo, o que estava acontecendo? Ele sorriu sutilmente com o canto esquerdo da boca, e eu… Não sei bem qual foi a minha reação fiquei irritada como ele ousa me perturbar assim, mas espera ele não estava fazendo nada de mais, apenas sorrindo, e que sorriso lindo… Foi abrindo levemente os lábios e mostrou melhor qual era o seu tipo de sorriso, doce… Quem era eu para impedir alguém de sorrir? Sorrir… Eu quis sorrir…
Os dois olhares juntos, eu cedi ao sorriso dele, sorri também, não passava nada pela minha cabeça, a não se para tomar cuidado com conquistadores baratos, a vida está cheia deles, os meus pensamentos feministas sempre gritam algo assim quando pareço estar em perigo, mas e se eu não estivesse, se todo perigo fosse tão lindo e encantador como aquela mistura de sorrisos e olhares eu me jogaria no primeiro abismo… Espera o que eu estou dizendo? Não sei mais, a tarde estava indo embora, eu já havia perdido a hora do trem.
Mas que o trem vá para o inferno, ele estava se aproximando, a verdade é que alguns poucos passos separavam a mesa dele da minha e estávamos a sós no café. O rapazinho que nos servia entrou para a cozinha, foi arrumar algo para fazer.
Estávamos a sós no café, na mesma mesa!
-Oi!
Foi a primeira palavra dita, que voz gotosa. Eu tremi estava levemente paralisada, era alto e muito bonito, muito mais do que eu havia percebido.
-Olá!
Respondi baixo.
Ele puxou a cadeira e sentou-se perto, bem perto. Ficamos em silencio. Havia algo a dizer? Perguntar o nome talvez, eu não sou muito boa com nomes. Decidimos por um consenso mudo ignorar todas as leis da moral e da boa educação, nada de apresentações. Estávamos nos olhando, nos conhecendo dessa forma. Devagar…
Muito perto. Éramos tão perto um do outro que todo o resto não fazia sentindo, não tinha forma própria nem lugar, nem tempo. Era o nosso tempo, o fulano misterioso de olhos de oceano e voz gostosa estava me segurando, mãos bonitas. Devo dizer que tenho certa afeição por mãos. As dele eram particularmente bonitas. Senti o seu abraço em volta da minha cintura puxando a cadeira ainda mais perto. Sua mão parou respeitosamente na minha cintura e a outra foi para baixo dos meus cabelos, afastando-os do meu rosto. Também o segurei, e como já deveria subsistir, desde o primeiro encontro de olhares, um beijo interessante aconteceu, bonito e de perfeito encaixe.
E eu dormi com ele…

Na cabeça!

Srta. Borboleta