Desabafo de mim!

Acho que não sei mais ficar de férias
Ainda estou um pouco acelerada e com a sensação de estar atrasada ou esquecendo algo
Eu não deveria estar lendo?
Ou estudando?
Ou tentando descobrir pra que as coisas servem?
Ou como realizar sonhos?
Mas eu já faço tanto isso, até quando deito pra dormir
Não durmo.
Talvez eu devesse escrever mais nos meus diários, alimentar essa minha coleção de vida. Mas tenho desperdiçado tanto tempo por aí.
As minhas ideias estão indo embora nessas tais redes antissociais, não quero estar tão presa à isso.
E o meu Tempo…
Meu?
Tenho as vezes que me lembrar de quem sou eu.
Tempo?
Eu não estou atrasada pra alguma coisa? Eu sempre estou!
É, acho que não sei mais ficar de férias!
 

Ode à sua mentira.

Os testes da vida são cada vez mais difíceis de se passar

As vezes pq pessoas nos abandonam no meio do caminho

Outras vezes pq elas se transformam em coisas monstruosas não mais possíveis de serem reconhecidas

Vc cresce e perde o brilho a vontade o sonho e ganha desespero

Abandona o seu próprio “vc” nem sabe mais quem é!

Nem sei mais quem é! E quem sou? Abandono o meu eu, me encho de ira para brigar com vc!

Grito baixo enquanto minha mente, espírito e coração se desesperam alto dentro de mim.

Me sufoco para não te sufocar para não me sufocar depois.

O sumir seria mais fácil se só existisse o eu raso do lado de fora de mim e o cansaço as vezes impede minhas lagrimas de cair e as vezes não, me deixando jogada me afogando no chão.

Fugir pra nunca mais voltar, de casa, de mim, do mal que vc se faz e nem vê.

Vou sair, bato a porta.

Não quero mais ouvir seus gritos fingindo serem certos honestos desonestos mentindo sua verdade irreal.

 

Construção

É claro que ia virar poesia 
Tudo vira
O ar, o riso, o choro e o arrepio viram poesia
O suspiro apaixonado ou do sentimento abandonado é poesia
A tremedeira no coração e no corpo ao encontrar alguém querido é poesia
O conflito em luta e guerra também é!
Como não?
Se até os canos do esgoto Maiakóvski transformou em versos
Transformo teu sorriso, teu perfume, teu gesto.
E o gosto de ver a luz refletida em seu rosto
Também eu posso
Também os meus
Também as lutas diárias pela sobrevivência dos seres
Tudo é passível de poesia
Tudo é possível em poesia
Tudo é amor!

Nota

Pois bem…
Eu sou atriz
Tenho por vocação a liberdade de sair por aí dançando
Andar pelas ruas gritando e deitar no chão
Tenho por profissão toda a liberdade do mundo
Divido o dia em segundos pra que ele não desate correndo a passar
No coração tenho uma terra sem grades
Em mim não há portões sem chaves ou cadeados
que costumam deixar trancafiados qualquer cidadão
Sou o que faço e de sonho pedaço
Me emendo, um remendo no tal mundo real.

Verso.

Rabisco aqui meus versos inúteis
Tão distante dos grandes poetas
eu sou só alguém que rabisca
não os copio, não os imito.
Apenas sento e rabisco
linhas sem métrica e sem rima
Nem da pobre, nem da rica
No branco da folha… só o que sinto é o que fica
Não que de grande valor seja
Ou que pra muita coisa sirva
Mas vivo
Venho, respiro, sento, rabisco
Na vida, cada escolha um risco
E no papel um pouco eu existo

Carta à luta.

Podia doer mais
O medo podia ser mais assustador se já não estivéssemos acostumados. 
O grito, a dor e o choro já não nos cortam o coração. 
Nem o deles, nem provocam em nós o nosso. 
Vemos agora o mundo com outros olhos
Descoloridos e quase mortos
Aceito o pouco e de pouco vivo 
Não por opção mas por imposição 
Me estrangulam as suas armas 
A sua falta mantida 
A sua presença mentida de mãos estendidas
A sua companhia que de companheiro eu desconheço
Conheço o silencio do bem, calado todos os dias pelo mal.
Mas já não ligamos mais pra isso. 
Escorremos em palavras uns pelas bocas dos outros
Sangue. Pelos dedos, mentes, corpos e dentes, uns dos outros. 
Enxergo no próximo o meu inimigo. Erro!
E não nos reconhecemos mais. 

Perdemos o foco.

Nota

As vezes… Mas só as vezes
Eu penso menos
Não me preocupo 
Paro de calcular a vida 
Sorrio do nada, 
Respiro aliviada
Suspiro por alguma coisa pequena e ainda sim bonita
Bem que o “as vezes” poderia ser sempre
E o mais, menos
E os dias, mais amenos, como nos canta Leminski
Mas só os maus, os bons mais intensos 
E que se tornem em muitas vezes
nessa troca de jeito de vida.

Se

Se avessi il mondo nelle mie mani
Se potessi
cosa farei? 

Se potessi
Cambierei il profumo dei fiori nelle mani dell’uomo
Cambierei il modo in cui si vede quando si guarda il mondo 
Cambierei il male che c’è in noi, lo butterei via

Se potessi, farei piovere nel deserto
Vorrei!
Nel deserto delle nostre anime
Che piangere secco con dolore
Piccole anime che non credono più a niente
e, quando credono,
Vengono i grandi e li calpestano
Come fanno ai fiori

Se avessi il mondo nelle tue mani
cosa vorresti fare?

Nasce dos Olhos

Naquela tarde sossegada no café da esquina, fim de sol, fim do dia fácil de pensamentos despreocupados, tento sem entusiasmo nenhum prender a minha atenção no jornal sem graça. Nada de cores, só as mesmas notícias, a mesma política suja e enferrujada. Percebo então um olhar incomodante vindo da mesa da frente do lado oposto da sala. Observei de um jeito delicado para tentar não parecer interessada, não estava. Ele estava lá, sentado, barda por fazer e o cabelo de um jeito jogado, sobre a mesa o copo de café, muito quente. Os olhares se encontraram, muito quente! Parei tudo por alguns milésimos de segundos, eu não sei nem se respirei durante esse tempo, meio envergonhada e incomodada com o olhar, tentei voltar rapidamente para a minha leitura sem graça. Preferiria estar lendo um romance ou qualquer coisa que me tirasse do mundo, tentei me prender àquelas paginas mas não consegui, um encontro de olhares não é algo fácil de ser ignorado.
Ele ainda estava ali, do outro lado, sentado de mau jeito na cadeira, como um garoto sem a mãe por perto pra corrigi-lo, tomava o seu café com calma como se não houvesse vida lá fora, será que não tinha nada melhor pra fazer a não ser me observar de longe? Confesso que depois de alguns minutos, poucos, percebi que estava gostando do seu olhar, de forma simples aquilo mexia com a minha vaidade.
Não sabia mais o que fazer, se o encarava, se me levantava e ia embora, ou se só jogava o cabelo como um ato sutil de “estou te dando bola!” Não conseguiria ser tão sutil… Em uma distração da parte dele, quando foi mexer o café, colocar mais açúcar talvez, prestei melhor atenção em seus traços, um rosto bonito, queixo quadrado, percebi que além de despenteado seu cabelo era levemente claro, um castanho, não tão loiro, estava usando uma camisa, meio amassada com os três primeiros botões desabotoados, e as mangas dobradas como se estivesse com calor. Deveria, a tarde estava muito quente.
Nesse momento eu já o estava analisando, quase tentando descobrir de quem se tratava apenas olhando para ele e então ele levantou o olhar pra mim, tinha algo de diferente, olhos grandes e verdes, ou talvez azuis, ele tinha o oceano no olhar. Profundo e misterioso. Colocou esses olhos nos meus, de maneira mais forte e intensa do que no nosso primeiro encontro de olhares, levei um susto mas não consegui desviar, eu estava presa, que absurdo, o que estava acontecendo? Ele sorriu sutilmente com o canto esquerdo da boca, e eu… Não sei bem qual foi a minha reação fiquei irritada como ele ousa me perturbar assim, mas espera ele não estava fazendo nada de mais, apenas sorrindo, e que sorriso lindo… Foi abrindo levemente os lábios e mostrou melhor qual era o seu tipo de sorriso, doce… Quem era eu para impedir alguém de sorrir? Sorrir… Eu quis sorrir…
Os dois olhares juntos, eu cedi ao sorriso dele, sorri também, não passava nada pela minha cabeça, a não se para tomar cuidado com conquistadores baratos, a vida está cheia deles, os meus pensamentos feministas sempre gritam algo assim quando pareço estar em perigo, mas e se eu não estivesse, se todo perigo fosse tão lindo e encantador como aquela mistura de sorrisos e olhares eu me jogaria no primeiro abismo… Espera o que eu estou dizendo? Não sei mais, a tarde estava indo embora, eu já havia perdido a hora do trem.
Mas que o trem vá para o inferno, ele estava se aproximando, a verdade é que alguns poucos passos separavam a mesa dele da minha e estávamos a sós no café. O rapazinho que nos servia entrou para a cozinha, foi arrumar algo para fazer.
Estávamos a sós no café, na mesma mesa!
-Oi!
Foi a primeira palavra dita, que voz gotosa. Eu tremi estava levemente paralisada, era alto e muito bonito, muito mais do que eu havia percebido.
-Olá!
Respondi baixo.
Ele puxou a cadeira e sentou-se perto, bem perto. Ficamos em silencio. Havia algo a dizer? Perguntar o nome talvez, eu não sou muito boa com nomes. Decidimos por um consenso mudo ignorar todas as leis da moral e da boa educação, nada de apresentações. Estávamos nos olhando, nos conhecendo dessa forma. Devagar…
Muito perto. Éramos tão perto um do outro que todo o resto não fazia sentindo, não tinha forma própria nem lugar, nem tempo. Era o nosso tempo, o fulano misterioso de olhos de oceano e voz gostosa estava me segurando, mãos bonitas. Devo dizer que tenho certa afeição por mãos. As dele eram particularmente bonitas. Senti o seu abraço em volta da minha cintura puxando a cadeira ainda mais perto. Sua mão parou respeitosamente na minha cintura e a outra foi para baixo dos meus cabelos, afastando-os do meu rosto. Também o segurei, e como já deveria subsistir, desde o primeiro encontro de olhares, um beijo interessante aconteceu, bonito e de perfeito encaixe.
E eu dormi com ele…

Na cabeça!

Srta. Borboleta