Mocinha

Costumava ser mais fácil
“Vai lá e marca! Você arrebenta.”
Acordar de manhã cedo, se vestir, tomar o café rápido e sair pra enfrentar o frio.
Aula cansativa, sempre se pode dormir, em uma ou duas
Por ter passado a noite pensando no tal amor da vida
que estuda na sala do lado e na real nem sabe ou liga.

Costumava ser mais fácil
“Ai esse cabelo, você é tão linda.”
Tirar 10 sem esforço,
responder bilhetinhos dum moço, dois, três…
jogar charme, rir na rodinha de amigas

Costumava ser bem mais fácil
Correr pra não perder o curso
Ter de fazer discuso na aula ou na sala da diretora
“Ih foi pega”
Menina tenha postura!
Imitar assinatura pra mamãe não descobrir esses 3 dias de “férias”.
Arrebentar naquilo que sempre soube fazer.
Sabia???
“Princesa” papai dizia.

Depois de se dar conta do tamanho do mundo
Hoje a vida judia!

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Ela e o pote de chá

Olhava para baixo, pra dentro do pote e se via refletida entre a fumaça e o cheiro do dia.

Espelho molhado de gostinho meio doce meio amargo meio remédio para curar resfriado meio carinho para curar a dor

Se sentia sozinha espremida naquela imagem do fundo do potinho e se derramava um pouquinho salgando o que se ia logo beber.

Sem saber ou  até meio sem querer desabafava com ela mesma enfrentando o reflexo da sua cabeça cheia, de sua garganta apertada, de seu sufocar de leve e de rotina  e o vapor que saia dali fazendo sua testa suar.

-vamos menina,beba antes que esfrie!

Coragem

Engoliu o choro, o desespero, as ideias que faziam sua cabeça rodar,

A imagem que tinha de si mesma e o chá.

 

 

Onde o seu coração descansa

De dentro de mim muitas vezes não vejo nada, ir além, escolher caminho, decidir e sobreviver são coisas confusas de se fazer no escuro.

É preciso parar!

Deitar, acalmar a respiração,

Aceitar a posição de não se fazer nada pois o tempo certo ainda não chegou

Sentir o corpo parar e o coração bater de leve esperando que os medos passem

que o futuro chegue

E com ele as histórias mudem e o mundo se transforme

Isso se pode fazer no escuro.

Acomodar-se no colo de Deus ouvindo os anjos tocarem musicas com as gotas de suas lágrimas e dançarem com os ventos de seu desespero até levá-los pra longe

Amadurecer ideias

Calar a mente que grita sempre tanto e se espalha em pensamento caduco de desespero de alma

Ser consciente em viver o descanso largado, desaforado, desafogado do equilibrar  o sentir e o pensar

Até que se saiba mesmo o que fazer.

Aí então, abrir os olhos e viver.

 

Coisas

Frio
Eu tava te olhando e te lendo e sentindo e lembrando

A gente pensou na vida
pensou na casa, futuro,
acaso, murmuro
Pensou em fazer amor
acender cigarro
beijar os pés
ir e vir
lavar as mãos, as costas, os cabelos, as suas costas
Se espreguiçar no sofá.

Tudo isso a gente pensou.

Andei pensando…

Eu não quero viver de pressa, passar por pessoas na rua e não olhar os rostos

amar e não olhar nos olhos

Não quero respirar pra viver e nem ao menos chegar a sentir o ar

me afogar em lágrimas e nem saber o porque

Não! Eu não quero perder os detalhes bonitos do mundo por achar que estão perdidos num mundo que não presta mais

É diferente o sair e enxergar os sorrisos, perceber o bom dia

sentir o beijo e o arrepio com calma

e o palpitar dos corações.

Beber mais um gole e pirar

Quero cada gota

E de chuva e de lágrima e de meu suor ganhando a vida mas sem perder o tempo de achar que estamos perdendo tempo não fazendo nada por aqui.

Quero o não fazer nada e só observar. Em paz.

Ouvir a musica e dançar

Parei pra pensar e quero viver.

 

 

 

 

 

 

eu e minha pouca idade…

Tenho tantas certezas
talvez elas façam parte da minha pouca idade
talvez elas se desfaçam com o tempo e não sobre nem metade
Pode ser que a vontade e o grito preso na garganta também se acabem
e que o que me queima por dentro se acalme
e minhas futuras rugas não me mostrem mais no espelho
Ou pode ser que elas se tornem minha história em linhas
cicatrizes e marquinhas,
marquem meu rosto, meu corpo
e me transformem num mapa
de minhas próprias escolhas.

Ai, que arte não enche barriga!

Eu não tenho dinheiro não senhor

Mas eu tenho arte de sobra, que sobra,

ou algo do tipo brotando de mim

Eu sei que isso não é dinheiro sim senhor

Mas isso é arte que escorre sem parar de dentro de mim

Ai que eu não sei como se sobrevive sem dinheiro não senhor

Mas eu também não sobreviveria sem arte, sem desejo, sem sonho e sem amor. 

 

 

 

Futuro

Não adianta ter pressa para ser o que quiser ser

Ansiedade de crescer

Buscar vida em todo lugar 

E depois voltar correndo pra dentro 

atrás da memória porque perdeu o agora e não consegue mais encontrar 

E nem pensar que todo hoje é desperdício

vivendo apenas do vício de uma angústia contemporânea e maluca de esperar e imaginar.

E viver.

Tá decidido!

Não sei decidir nada nessa vida e nem quero  e nem vou

nem escolher se dia ou noite amor ou desespero

beber comer um ou dois

 

e ter você hoje amanhã e depois  

Ou sorrir sem parar e nem duvidar 

e uma oração

e entregar o seu amor e pegar o meu de volta

ou ficar trocando um pouco por não saber escolher

e não saber decidir 

é…

só te olhar e sorrir

e te amar

e sentir

e ser.

A carta

Prefiro gastar meu tempo escrevendo e lendo

e bordando e tecendo à pensar em você

Como se escrevendo eu não estivesse te descrevendo, e mais ainda descrendo…

Como se lendo eu não encontrasse seus traços em cada personagem bobo de romance barato que eu compro a 5,00 em uma banca de jornal

Não me parece justo amor

que venha e que tome minha vida assim

Ocupe meu tempo, minha mente , todos os meus afazeres se já meu corpo não ocupa mais,

Não do jeito que costumava e que eu gostava e que me doía gostoso saber que saudade se mata pois estava pra chegar

Agora me dói de desgosto saber que certo moço virou só inventário na mente, foto no relicário

memória contente, que ao sabor real do presente de presente só se encontra em passado. 

E já que toma minha escrita e tempo

Dou um passeio

Atravesso a rua 

Venho e deixo essa carta em teu portão.